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Apresentando Ariadne Quintella: Olívia Beltrão e Cássio Cavalcante

DESTAQUE LITERÁRIO DA CULTURA NORDESTINA
MARÇO 2019

Homenagem a Ariadne Quintella
Olivia Maria Beltrão Gondim
Recife, 11 de março de 2019.

Conheci Ariadne Quintella, em 2014, quando comecei a frequentar a UBE – União Brasileira de Escritores. Nossa amizade, portanto, é recente, mas nem por isso de pouca consistência. Desde o início, quis mergulhar na profundidade dos seus olhos azuis, fascinantes mares de vida.

Uma senhora bonita. Porém, é a inteligência que deslumbra e captura as pessoas para junto de si. Sua força de atração, acredito, sempre, desde quando “saracoteava metida em um vestido de tafetá, todo enfeitado com laços de fita de veludo e rendas”, esteve instalada no magma borbulhante do cérebro. Existe dentro da bela Ariadne, que inclusive foi miss, uma Ariadne ainda mais deslumbrante, forte, invencível, forjada na alegria e, também, na dor.

Invejo os que a conheceram aos 20 anos de idade ou, mesmo, aos 40, enquanto corria pelas estradas, ora floridas ora agrestes, movendo pedras, soprando o vento, arando a vida para cultivar projetos e colher sonhos. Quando a encontrei, já tinha cabelos brancos aquietados pelo tempo e desfilava por avenidas ladrilhadas de pedras, amaciadas pelos próprios passos, distribuindo sabedoria. Das nossas conversas e da leitura das suas crônicas, extraio o substrato das palavras que a vigora, para montar o mosaico que melhor a defina, atenta às mutações decorrentes das alegrias e desgostos, lutos e resignações.

Pernambucana, filha de Pedro Quintella Cavalcanti e de Cacilda Marinho Quintella, nasceu no Recife, no dia 18 de setembro (de ano que prefere não revelar). Sobre a infância e a adolescência, diz em uma das crônicas que compõe seu mais recente livro, Boa Tarde, coletânea de textos publicados, originalmente, na coluna de mesmo nome, do Diário da Noite: “Nossa casa é modesta, mas nela vivemos em paz. Metade do orçamento da família é dispensado à minha escola. Estudo no melhor colégio da cidade e ando bem vestida. Frequento Clubes. Vivo em sociedade. O resto do tempo leio romances e não faço trabalhos domésticos”. Filha única, todos os mimos eram para ela. Cursou o Ginasial e o Pedagógico no Colégio das Damas, tradicional educandário cristão, localizado na Ponte D’Uchoa, zona nobre da cidade do Recife. Com as religiosas, fortaleceu o espírito cristão. Dos pais, herdou as virtudes cardinais (prudência, justiça, fortaleza e temperança), que orientam a conduta segundo a razão e a fé.

O pai era seu porto seguro, seu protetor. Refere-se a ele, sempre, com muita saudade, amor e autêntica gratidão.
Ao descrever a mãe, em crônica datada de 10 de maio de 1976, vejo a descrição de si mesma. É a força da genética, do aprendizado por meio do exemplo, da admiração. Assim define Dona Cacilda: “Seu dinamismo, sua capacidade de trabalho, de vencer as adversidades sempre de cabeça erguida, somados a uma força interior e dignidade humana a toda prova, deixam sempre uma margem para um querer bem mudo, silencioso”.

Pinço, dos seus escritos, brincadeiras pueris: “…os barquinhos de papel que, minha mãe e eu, atirávamos juntas, pela janela, na enxurrada que passava em frente ao portão nos dias de chuva”; e frivolidades juvenis: “… vestido novo toda semana, sapatos e enfeites. Festas, não perdia uma”. Chego, então, à mulher adulta que escreve: “A felicidade partiu de mansinho com medo de acordar alguém que, naquela hora, vivia o seu último sonho”. Este desabafo não é incomum aos humanos, pois a felicidade plena e saltitante da juventude, em regra, não coabita a casa do amadurecimento, envelhecimento; cujos sobrenomes são trabalho, responsabilidade, preocupação. A felicidade é visita, traz presentes de risos e alegrias e parte, deixando a paz vigiando o lar, para que se faça o que tem de ser feito, no cotidiano das horas.

Realizar a vida requer esforço. Ariadne nunca se esquivou de dar o melhor de si para receber, em retribuição, o justo quinhão. Sobre o trabalho diz: “O trabalho não me amedronta e posso entrar pela noite, desde que a tarefa seja agradável.”

Iniciou a carreira profissional como professora do Estado, concursada. Lecionando em escolas públicas, ingressou na faculdade, preparando-se para alçar voos maiores.

Formada em Jornalismo e Direito, pela UNICAP, com pós-graduação em Literatura Brasileira e em Artes, pela Universo, e, ainda, em Diplomacia e Negócios Internacionais, pela faculdade Damas, Ariadne ascende na trajetória profissional, com os olhos voltados para o social. Na carreira jurídica, integrou a equipe da Assistência Judiciária Gratuita, onde teve oportunidade de empregar os conhecimentos técnicos em favor dos menos favorecidos que recorriam ao Poder Judiciário a fim de terem garantidos os direitos inerentes à dignidade humana. Como jornalista e escritora, tem voz ativa para trazer a debate os problemas sociais, sinalizar alertas, revelar cóleras, defender pontos de vista.

Curioso é que a paixão pelo jornalismo manifestou-se, precocemente, dando vazão a sentimento de indignação, quando ainda contava 10 anos de idade. Impressionada com o destino do coqueiro Gogó da Ema, atração turística da cidade de Maceió, que teve morte anunciada, mas cujas providências só foram tomadas após o fato consumado, sendo inúteis as tentativas de ressurreição, escreveu um texto alusivo ao infortúnio. A redação foi publicada em jornal de grande circulação na Capital alagoana. O sucesso fez nascer na menina o desejo de ser jornalista. Galgou êxito na carreira. Trabalhou como repórter, redatora, colunista e diretora do Diário da Noite, onde, entre os anos de 1975 e 1978, manteve a coluna Boa Tarde. Posteriormente, trabalhou no Jornal do Comércio e fez assessoria de imprensa para a Fundação Joaquim Nabuco.

Ariadne é, sobretudo, exemplo de perseverança, de determinação e de amor ao trabalho. Incansável! Hoje, apesar de Defensora Pública aposentada, com proventos satisfatórios às suas necessidades, enfrenta jornada diária na CEPE– Companhia Editorial de Pernambuco, e ainda encontra tempo e disposição para revisar textos de outros escritores, escrever contos e crônicas, publicar livros, participar ativamente da vida cultural e literária da cidade do Recife.
Escritora conceituada, autora dos livros “Acertos e Desacertos de Joaquim Nabuco”, “Revisitação na Estética Barroca da Poesia Religiosa de Ângelo Monteiro”, “Boa Tarde” e “Almanaque Centenário do Diário Oficial”, este em parceria com Albuquerque Pereira; coautora de diversas antologias e com trabalhos publicados em muitas revistas literárias, é membro da União Brasileira de Escritores – UBE, da Academia de Letras e Artes do Nordeste – ALANE e da Academia de Letras do Brasil – ALB.

Ler os textos de Ariadne é navegar em um mar de palavras tranquilas e sentimentos profundos. Tem o dom da escrita; assim, deixa fluir o pensamento em sucessivas ondas até atingir, sem esforço, o ápice da criação. Emociona! A intimidade com o papel é tamanha que parece sussurrar segredos.

Nos anos 70, “Os olhos presos nos ponteiros do relógio contam o tempo: tempo de trabalhar, tempo de ganhar dinheiro, tempo de progredir”, desquitada, trabalhando e estudando, com dois filhos em idade escolar, a vida não era fácil. Socorria-se dos pais para ajudar a educar os meninos, mas aqueles também precisavam de atenção, envelheciam. Ariadne mãe, filha e profissional está nas entrelinhas das suas crônicas, mesmo quando não fala, especificamente, de si.

Casou muito jovem, aos 18 anos, idade em que ainda não se sabe escolher marido. Da união nasceram os filhos, Tarek e Samir. O casamento não sobreviveu por muito tempo, veio a separação.

Referindo-se à falência do matrimônio de casais anônimos, em 26 de maio de 1977, escreve: “A vida a dois está cada dia mais difícil. De arte do encontro a vida transforma-se no artesanato do desencontro”. Em crônica, datada de 23 de junho de 1977, noticia: “Hoje é o grande dia para a maioria dos brasileiros: a segunda votação da emenda do divórcio. Com todo o esforço da Igreja, que tenta mascarar uma situação irremediável, acredito que, desta vez, ele seja aprovado”. É nítido o particular interesse na aprovação da lei que lhe garantiria o “prazer de gritar, sem poluição na voz, quando alguém perguntar: qual seu estado civil? DI-VOR-CI-A-DA, carregando nas consoantes, com orgulho e sem temor”.

Em 05 de dezembro de 1978, diz: “Posso sonhar, conhecer o mundo num vôo ligeiro e seguro do imaginário. Cansei de correr e agora caminho devagar ao encontro do fim”. Por tudo o que realizou após aquela data, constatamos: superou o anunciado cansaço e continuou correndo, lutando, construindo o futuro para si e, principalmente, para os filhos.
Anos depois, filhos crescidos, universitários, refez a vida amorosa. Conheceu o verdadeiro amor, Salomão. Viveu, então, um relacionamento maduro e tranquilo, que lhe garantiu paz e felicidade. Viajaram juntos, conheceram o mundo. O apartamento onde atualmente mora, no bairro de Boa Viagem, é repleto de suvenires trazidos de Veneza, Colônia, Paris.

A vida, no entanto, é igual ao mar, acalma; mas a maré de ondas fortes volta, inevitavelmente. A morte do filho, com 33 anos de idade, a doença prolongada de Salomão e falecimento foram maremotos que precisaram ser vencidos. No fundo dos olhos, esconde as dores que teve de sepultar. Nos mesmos olhos cor do mar enxergamos a mansa alegria de quem cumpre com amor tudo o que a vida impõe, afinal “o tempo é curto para amargar a sorte ou tentar modificar a ordem natural das coisas”.

Para concluir, registro meu imenso apreço por Ariadne Quintella. Escritora admirável, pessoa humana que quanto mais conheço mais me afeiçoo, porque muitas são as suas qualidades, destacando-se a alma criativa, o dom da amizade, a vocação da solidariedade e o espírito apassivador.

Seus luminosos olhos azuis transmitem confiança.

Ariadne Quintella
A palavra amiga que todos querem ler
Por Cássio Cavalcante

Filha de Pedro Quintella Cavalcanti e Cacilda Marinho Quintella, uma vez contou em uma crônica que nasceu à sombra da propriedade privada, já que seu avô materno Manuel Alfredo Marinho do Passo, conhecido como Santo Marinho, foi dono de grandes partes das terras onde hoje é Casa Amarela, bairro em que a neta nasceu.

Estudou o ginasial e o curso pedagógico no Colégio Das Damas. Mais tarde dando um novo rumo a sua vida fez Jornalismo, formando-se na terceira turma desse curso na Unicap, Universidade Católica de Pernambuco. Mas antes da Católica teve atuações em vários segmentos como lembrou na orelha de um dos seus livros: “Atuei no Movimento de Cultura Popular, fui professora de escolas públicas, empregada da Superintendência do Desenvolvimento da Pesca (Sudepe)”.

Estagiou no jornal Diário de Pernambuco, entrou como foca no Jornal do Commercio e lá ficou até se aposentar. Ali era carinhosamente conhecida como Mama, em seu Jipe os passeios com os amigos de redação foram inesquecíveis causando saudades até hoje. Foi Assessora de Imprensa da Fundação Joaquim Nabuco, quando o sociólogo Gilberto Freyre estava à frente do Seminário de Tropicologia e listava os convidados.

Resolve fazer mais uma faculdade, dessa vez Direito, também na Unicap. Após se formar ingressou da Defensoria Pública. Tem cursos de Pós-Graduação em Literatura Brasileira e Artes pela Universidade Salgado Filho, e de Diplomacia e Comércio Exterior pela Faculdade Damas. Faz parte com uma participação dinâmica da Abrajet, Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores de Turismo, fundada por Augusto Boudoux.

Em seu primeiro livro “Revisitação da Estética Barroca Na Poesia Religiosa de Ângelo Monteiro”, Ariadne nos revela a importância da poesia do poeta e amigo. Com a publicação ganhou Menção Honrosa da Academia Pernambucana de Letras.

No segundo livro: “Acertos e Desacertos de Joaquim Nabuco – Diplomata na Partilha com a Inglaterra e na Construção do Pan-Americanismo, a escritora recifense nos remete ao universo de um dos mais importantes nomes pernambucanos.

Em 2018 nos brinda com o terceiro livro: “Boa Tarde – Crônicas Escolhidas”, uma deliciosa seleta dos textos que escreveu para o jornal Diário da Noite por quatro anos. No prefácio desse rico livro o poeta amigo Ângelo Monteiro escreve com conhecimento de causa: “E a crônica foi justamente o fio de que dispôs a nossa Ariadne para tentar libertar seu leitor, qual o novo Teseu, do labirinto em que sempre habitou o Minotauro dos dias, em sua permanente ameaça as menores promessas que todo mundo, mesmo precariamente, aspira ver realizadas”. Nesse mesmo livro me foi dada a honra de fazer o posfácio, que termino assim: “Ler essas crônicas é como rever uma velha amiga e relembrar os bons tempos idos. E todos nós sabemos recordar é preciso”.

Ariadne faz parte de mais de trinta antologias editadas pela Novoestilo, Novo Horizonte e pelo selo editorial Enseada das Letras, entre outras. A autora pertence às seguintes associações literárias: Academia Recifense de Letras, Academia de Artes e Letras do Nordeste Brasileiro, Academia de Letras do Brasil – Seccional Pernambuco. União Brasileira de Escritores entre outras.

Érico Veríssimo explica: “Nenhum escritor pode criar do nada. Mesmo quando ele não sabe, está usando experiências vividas, lidas ou ouvidas, e até mesmo pressentidas por uma espécie de sexto sentido”. E Henry Miller completa: “Nenhum escritor é bom a não ser que tenha sofrido”. Ariadne Quintella tem em seus textos o gosto da vida, mas é uma fênix sempre ressurgindo na literatura que produz.

Praia de Boa Viagem, 11 de março de 2019

SERVIÇO
Abertura do Destaque Literário de Março
Data: 14/3/2019
Horário: 18h
Local: Ponto de Cultura Nordestina Letras & Artes
Endereço: Rua Luiz Guimarães, 555, Poço, Recife
Telefone: 81 3243-3927
Entrada franca

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