Apresentar Flávia Suassuna no Destaque Literário da Cultura Nordestina é uma grande honra, além de enorme responsabilidade. Falar de alguém tão grandiosa e, ao mesmo tempo, tão simples na sua essência, não é tarefa fácil. E quem a conhece sabe exatamente do que estou falando.
Sua humildade, gentileza e simpatia são convites para novas descobertas, pois o tesouro que tem guardado dentro de si é o que realmente encanta e fascina – que o digam os amigos e felizardos estudantes que podem ou tiveram a oportunidade de conviver com esta mulher sagaz na percepção do que não é tão óbvio aos olhares superficiais sobre o mundo e as pessoas.
Nascida no Recife, em 27 de agosto de 1957, teve, desde cedo, grande interesse pela literatura, tendo também influência de Ariano Suassuna, seu tio, como grande orientador em suas leituras e incentivador em seus escritos.
Formada em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (1979), fez também Mestrado em Teoria da Literatura na mesma universidade (1983).
Escreveu seu primeiro romance, Jogo de trevas, muito jovem, em 1980, ainda estudante, pelas Edições Pirata, movimento cultural alternativo da cidade do Recife, do qual participou, e que a transformou na primeira ficcionista de Pernambuco.
Em 1987, ganhou um concurso literário organizado pela Prefeitura do Recife, em homenagem aos 450 anos da cidade, e teve o romance “Remissão ao silêncio” publicado pela Fundação de Cultura da cidade do Recife.
Outros livros inevitavelmente se seguiram. Aqui, teremos oportunidade de conhecer a profundidade das suas tranças: Trança primeiro fio, Trança segundo fio e Trança terceiro fio.
Flávia é professora de literatura brasileira e de redação no Ensino médio da rede particular, do Recife. Tem um blog, Trança, onde publica suas crônicas (“o nome trança me veio, ficou na minha cabeça e impediu outro de chegar, talvez por acreditar que cada um de nós é uma trança de gente”).
Achei por bem publicar uma carta que encontrei, escrita por ela para seus alunos, e publicada por um deles:

Carta de uma das melhores professoras que já tive. Reflete totalmente a realidade que vejo em salas de aula, infelizmente.

Todo ano me traz uma turma nova, e isso sempre me renovou: novos sonhos, novas esperanças costumavam amanhecer em mim forças e coragens que eu nem sabia que tinha. Há tanto tempo sou professora, que sabia de cor o que acontecia: inicialmente, meus alunos me estranhavam, achavam que eu era meio louca, depois começavam a chegar bilhetinhos, conversas, até choros, e engrenava um amor lindo entre mim e eles, desses que merecem uma palavra ou um abraço, quando há um encontro na rua, no banco, no supermercado ou no consultório de um médico qualquer.
Tantos ex-alunos referiam como fui marcante para eles… E isso sempre foi um sentido na minha vida, uma força extra de que eu lançava mão quando me sentia cansada.
Devagar e depressa, essa sequência de gerações foi se fazendo uma corrente do bem – eu falava, era compreendida (não por todos, é claro, mas pela maioria) e minhas palavras tinham um tempero de valor que servia de referência ou ponto de partida. Isso tudo multiplicado pelo número de alunos que tive desaguava numa felicidade mansa que morava em mim e que me dava uma certeza clara de que tudo dava certo no final.
Mas essa corrente do bem foi enfraquecendo, sem que eu sentisse de imediato, e, nesse ano de 2014, ela por fim foi quebrada.
Comecei a ouvir que eu precisava “falar a língua do meu aluno”, que era preciso “dizer o que o aluno quer escutar”. Eu nunca tinha me preocupado com isso, sempre me ocupei de falar aquilo que eu achava que devia dizer, ou aquilo que meu aluno precisava ouvir; essa era minha responsabilidade, inclusive; fazia parte da tarefa de educar. Nunca medi palavras para dizer: “não está bom”, “precisa melhorar”, “foi insuficiente”, “está apenas regular”. Não sei precisar quando essa nova realidade se inaugurou. Meu coração está aqui dizendo que talvez tenha sido a partir de 2010, talvez, não sei ao certo…
Devagar e de repente, meu aluno começou a querer atalhos, a desejar apren-der só o pedaço, como se o aprendizado e a compreensão de si e do mundo viessem por aí, como se fosse possível melhorar uma nota sem melhorar como pessoa… O ato de escrever deixou de ser uma autoexpressão para ser aquilo que o avaliador quer ouvir ou uma busca por meios que o enganem.
Nada é subjetivamente construído, o aluno quer receber tudo pronto, e a in-terdisciplinaridade passou a parecer uma piada de mau gosto. A aula de literatura virou um estorvo, e escrever, apenas uma estratégia de preenchimento de linhas.
As filas de empréstimos de livros na biblioteca minguaram, e os alunos agora acham que vão se safar sem saber ler e escrever de verdade, competências sociais que continuam imprescindíveis à inserção política e social, ou ferramentas para quem quer fazer a diferença, como se diz por aí.
Recentemente, recebi um texto muito triste de uma amiga, o qual dizia que o mundo a que pertencemos morre antes de nós. Não quero crer que é isso que está acontecendo comigo, seria admitir que não vale a pena estar viva. Nem é isso assunto para se falar a jovens que estão apenas no começo de sua caminhada. Quero crer que estamos atravessando uma fase apenas que, do jeito como começou, vá passando, passando, até desaparecer. E que chegará de novo a fé no esforço certo.
Outro dia, quando denunciei que há vários tipos de introdução aceitáveis numa dissertação argumentativa, um aluno retrucou:
− Diga logo a que serve para todos os textos!
Danou-se, eu pensei. E não pude conter o pensamento que levantou várias hipóteses: a de que esse aluno sempre aborda suas pretendentes de uma só forma, a de que ele usa apenas uma posição quando faz sexo, a de que ele sempre pede o mesmo prato no restaurante, a de que ele admite apenas uma forma de “certo”… E achei que ele caiu na armadilha da simplificação e da uniformização, perdendo o melhor da vida, das relações e das pessoas.
Pois elas são únicas, difíceis por serem únicas, surpreendentes e, por isso, ricas de si mesmas. Delas nascem textos múltiplos, diferentes, autorais (como nós, professoras de redação, os chamamos). E essa diversidade é uma nova lei, a lei da tolerância, a utopia da diferença que tanto lutamos para implantar.
O que está acontecendo com vocês, alunos, que desistiram do caminho próprio, da roupa com personalidade, da escolha exclusiva, da construção subjetiva de sentidos? Onde já se viu aceitar por inteiro as ordens televisivas, partidárias, publicitá-rias, midiáticas?
A vida não é uma tarefa fácil, ninguém vem de férias, todos têm que trabalhar muito e colecionar mais perdas que ganhos. Seu professor não chegou a sua vida para dizer-lhe o que você quer ouvir; ele está aí para mostrar rotas de melhora, para avisar que você está errado quando você está errado (e certo quando o caso é inverso). E educação não é formar e conduzir rebanhos. É fazer pessoas. Pessoas críticas. Capazes, inclusive, de analisar o professor e avaliá-lo com justiça.
Por isso estou aqui hoje pedindo atenção. Atenção ao falso líder que só quer seguidores calados; atenção ao falso professor que não ensina a pensar e a seguir caminhos próprios, mas a burlar examinadores, por meio de atalhos; que diz que vai ensinar você a fazer uma prova. Atente para o fato de que você, devagar, tem que criar competências para a sua vida inteira. Uma escola, uma faculdade, uma universidade não são espaços onde você aprende a enganar e a fazer provas, mas onde você aprende a ser um sujeito capaz de escrever sua própria história.
Eu poderia aqui ter dito que todos os sonhos de vocês se realizarão e que vocês serão felizes. Mas parece que faço o contrário: pernambucanamente, enfatizei o suor obrigatório no plantio e mesmo na colheita da cana para que, na sequência, vocês possam ter o açúcar.
É claro que quero que vocês sejam felizes e que seus sonhos se realizem. Mas o que quero mais é vê-los autônomos, donos de si próprios, seguindo trilhas criativas e, portanto, tolerando a escolha diversa do outro. O que quero mais é vê-los enfrentar com originalidade os dilemas e desafios da vida, deixando marcas por onde passarem.
A carta reflete a preocupação dela com o rumo que o mundo está tomando, com esse simplificar ao mesmo tempo em que não forma adultos críticos. Demonstra todo o pesar sobre uma realidade que foge de tudo em que acredita. E confesso, chorei a ler, chorei por me colocar em seu lugar de professora, na verdade uma orientadora de vida e senti, senti como se sente alguém que vê mudanças vazias e cabeças que querem respostas a um toque do indicador.

Não vou mais me prolongar. Teremos o mês inteiro para descobrir Flávia Suassuna, cascavilhar seus livros, suas poesias, sua história, sua sede de emoções.
Lembro uma poesia lida por ela no Multivercidedes, feita quando seu neto estava para nascer. A emoção incontida que invadiu a todos. Esta é a Flávia, um presente para nós. Profunda, forte, inteligente, sensível e meiga, que iremos descobrir aos poucos num mergulhar apaixonante.

Serviço:
Abertura do Destaque literário de agosto – Flávia Suassuna
Data: 2 de agosto de 2018 (quinta-feira)
Horário: 18 às 21h
Coordenação: Bernadete Bruto e Eugênia Menezes
Local: Ponto de Cultura Nordestina
Endereço: Rua Luiz Guimarães, 555, Poço, Recife
Maiores informações: (81) 3243-3927

convite ag

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