Reinações de narizinho

Carta de Bruna Estima Borba para Monteiro Lobato

COLETÂNEA DE MEMÓRIAS – CARTAS A MONTEIRO LOBATO

Querido Monteiro Lobato,

Sei que suas obras têm o mérito de ter encantado gerações de crianças. Fui uma delas. Nasci e vivi até os oito anos em um sítio da zona da mata de Pernambuco. Dessa minha primeira infância recordo que não nos faltava nada, lá havia tudo de que precisávamos. Era acordar bem cedo e havia tanto o que ver e fazer que nem se sentia o tempo passar. Os animais – o galo e suas galinhas, os patos, duas vacas e um boi, o jumento, e o cachorro Trovão criavam um tumulto divertido e trabalhoso. As árvores na entrada da propriedade, o pequeno jardim de minha mãe ao redor da varanda e a plantação lá ao fundo seguindo para as terras do sítio eram, na minha infância, o universo. Em nossa casa havia um único livro, a Bíblia. Ainda assim, nós crianças não podíamos tocá-lo. Ficava em cima do aparador, ao lado da imagem de Nossa Senhora.
Mas em um curto período tudo mudou. Faleceram meu pai e em seguida minha mãe. Eu, minhas irmãs e irmãos fomos distribuídos pelas casas dos parentes. Vim parar no Recife, na casa da tia Mariinha e do tio Eusébio, casados há cerca de dez anos e sem filhos. Lembro de minha chegada tão tímida, levada pela Irmã Bernadete da paróquia de Aliança.
– Essa é sua nova mãe, disse a freira.
O susto foi enorme. Mas tio Eusébio interrompeu aquela fala.
– Bem-vinda, Laura. Essa é sua tia Mariinha e eu sou seu tio Eusébio.
Minha tia adiantou-se para me abraçar.
– Deve estar com fome, coitadinha.
E me levou para uma mesa onde se via um lindo e cheiroso bolo.
– Fiz para você, Laurinha.
Eu não tive nada melhor para dizer, a não ser a frase ingrata:
– O de minha mãe é mais bonito.
Queria repudiar as más palavras da freira. Mas aprendi a amar minha tia no momento em que, pondo uma fatia no prato, respondeu:
– Com certeza, meu bem. Nenhum bolo será nunca melhor que o de nossas mães. Mas esse fiz com muito carinho para você.
Já anoitecia quando a Irmã Bernadete se despediu. Nos dias que havia passado no convento após a morte de minha mãe me esforçara bastante para tomar banho e me vestir sozinha, pentear-me, me arrumando bem direitinho.
Na nova casa havia um quarto somente para mim, um guarda-roupa com gavetas onde guardei o pouco das coisas que havia trazido. Fiz tudo isso com muito cuidado e voltei para a sala.
O jantar seguiu tranquilo e, no final, tia Mariinha disse:
– Vamos dormir, Laurinha?
Nesse momento tio Eusébio se aproximou de mim com um embrulho nas mãos.
– Laura, comprei esse presente para você. Acho que vai gostar.
Desembrulhei e vi o livro, Reinações de Narizinho.
O livro trouxe para perto de mim um mundo imaginário que não me causava nenhuma estranheza: um sabugo de milho que se tornava Visconde me parecia naturalmente possível e, mais que isso, desejável. Um porquinho Marquês, que engraçado! Porém, para além dos maravilhosos relatos eu me via em Emília, a menina que, como eu, não tinha mãe.
Ganhei outros livros seus e os lia com tanto divertimento que sequer sentia o tempo passar: O Saci, Viagem ao Céu, Caçadas de Pedrinho, Emília no País da Gramática, Aritmética da Emília, Geografia de Dona Benta, História das Invenções, Dom Quixote das Crianças, Memórias da Emília, O Poço do Visconde, O Picapau Amarelo, O Minotauro, A Reforma da Natureza, A Chave do Tamanho e Os Doze Trabalhos de Hércules.
Apesar de ter em Emília minha heroína, eu sequer cogitava em ser levada e malcriada. Não ousava fazer birras ou ser teimosa. Nem me arriscava em desobediências e travessuras. Tampouco era respondona e faladeira. Muito pelo contrário, era naturalmente cordial e atenciosa. Educada e disciplinada. Simpática e estudiosa. Lembro que um dia pus na boca um pedaço de galinha com um pequeno ossinho. Fiquei com tanta vergonha! Não sabia como tirar aquilo da boca, tampouco tive coragem de engolir. Então fiquei durante toda a refeição com aquele osso em um cantinho da bochecha. No final, quando pude me levantar da mesa, fui correndo ao banheiro e cuspi na privada.
Por isso mesmo não era de admirar que Emília fosse um ídolo para mim: falava tudo o que eu calava. Fazia tudo o que eu não me permitia sequer querer fazer. E, sendo uma boneca feita de trapos e recheada de macela, se auto-declarava:
– “Sou a independência ou morte!”
Quando sonhava eu era Emília e então nada me limitava, ninguém me segurava: subia em nuvens para ver de perto as estrelas, colhia mel de abelhas sem ser picada, apanhava pérolas em ostras no fundo do mar, descia pela cratera do vulcão e via, de perto, a lava escorrer por entre meus pés sem me queimar. Emília era meu alter ego e, guardadas as proporções, meu Dr. Hyde. Ia dormir pensando:
– O que vou aprontar nessa noite?
Ao completar dez anos ganhei uma festa de aniversário. Eu, que nunca esperava qualquer agrado, criei coragem e pedi um presente: um retrato de minha mãe, pois me afligia sentir a memória de seu rosto se apagar a cada dia em minha mente. Sabia que chegaria o momento em que não me recordaria mais dela. Meu tio não pôde atender àquele pedido, pois naquele tempo não havia fotos e retratos à vontade como hoje.
Então tia Mariinha me salvou mais uma vez, dizendo:
– Laurinha, me peça um presente.
E eu, esquecendo um pouco a saudade que a cada dia se tornava mais efêmera, pedi com alegria um bolo. Porém, não o bolo que mamãe costumava fazer e que com melancolia estava tão distante, mas o livro comestível inventado por Emília em A Reforma da Natureza. As folhas seriam feitas de bolo e à medida que fossem lidas iriam sendo comidas. Para meu grande contentamento tia Mariinha me fez um bolo usando as assadeiras próprias do bolo de rolo, com a massa bem fininha para assar as camadas que vão sendo enroladas umas sobre as outras com recheio de goiabada. Foram três páginas escritas por minha tia usando o doce de goiaba como tinta, transcrevendo partes dos livros que você escreveu e onde ela também conseguira desenhar o rosto de boneca de Emília e seus olhos de retrós. Cantamos parabéns, comemos as folhas dos livros e eu me senti como se estivesse dentro de uma de suas obras.
Quando estendi a mão para pegar o último pedacinho da folha de bolo escutei, sem que sua voz me causasse nenhum sobressalto, minha mãe dizendo baixinho:
– Feliz aniversário querida.
Já se passaram cinquenta anos daquela data. Ainda tenho seu Reinações de Narizinho guardado comigo e ainda lembro, quando vou ocasionalmente a aniversários, do bolo comestível dos meus dez anos. E ainda me emociono e agradeço a você, querido Monteiro Lobato, por ter tornado minha infância mais feliz, mais fácil, mais infância.

Recife, 02 de abril de 2019
Bruna Estima Borba

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1 thought on “Carta de Bruna Estima Borba para Monteiro Lobato

  1. Emocionante o relato da primeira carta recebida pela Novoestilo, para compor a coletânea de memórias Cartas a Monteiro Lobato. Parabéns, Bruna Borba. Este comentário já está sendo contabilizado para a premiação. Em outubro será feito o levantamento, e as três cartas que tiverem maior número de comentários serão premiadas.

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