Urupês

Carta de Ivanilde Morais de Gusmão a Monteiro Lobato

COLETÂNEA DE MEMÓRIAS – CARTAS A MONTEIRO LOBATO

Recife, 18 de abril de 2019

Estimado escritor Monteiro Lobato,

Há muito era para eu ter escrito esta carta declarando a importância de tua obra na minha vida e, claro, na vida de todo povo brasileiro, pelo fato de teres sido aquele que escreveu pensando no público infantil e, mais ainda, tua escrita abalou os alicerces da intelectualidade no início do Século XX, quando apontaste as possibilidades das transformações dessa terra e a apatia dos que a dirigiam. Escrever-te nesta data, 18 de abril, tem um grande significado, pois foi o dia em que tu chegaste ao mundo no ano de 1884 e partiste, voltando para o universo em 4 de julho de 1948. Foste, assim, um homem que atravessou o Século XIX e viveu em um mundo de grandes transformações e das grandes Guerras, a 1ª de 1914-1918, e a 2ª de 1939-1945.

Conheci-te, através de tua escrita, quando eu tinha cinco anos. Claro que ainda não sabia ler, mas sendo órfã de mãe, foi minha irmã, professora, quem assumiu a responsabilidade da minha educação. Na época, ela foi convidada a preparar duas cri-anças para a seleção da Admissão ao Ginásio, hoje, ensino fundamental. Teria que passar uma temporada morando no Engenho, ainda em atividade. Sua única exigência foi a de que só aceitaria o trabalho se pudesse me levar. Apresentada à família e às crianças, e depois de instalada, foi conhecer o casarão e o lugar onde iria dar aulas. Eram dois meninos – gêmeos – com onze anos. A sala onde foi exercer sua profissão era enorme, com altas prateleiras cheias de livros. No meio da sala, uma longa mesa de madeira com tampo de vidro, e o material necessário à sua tarefa.

Sentou-me perto dela com papeis e lápis para rabiscar. Por ser uma criança inquieta e muito curiosa, pedi para olhar de perto os livros. Tinha uma prateleira com livros coloridos, apanhei um e trouxe para a mesa a folhear. Foi um só encantamento. A partir daí, além de aprender a ler em teus livros, ainda li todas as histórias dos Ir-mãos Grimm, que traduziste para o português.

Foste um homem de mil faces, amado e odiado, mas tendo sido reconhecido pela capacidade de ver, ler e compreender o mundo. Quando de tua morte a manchete do jornal estampava em letras garrafais:

“FECHOU OS OLHOS AQUELE QUE NOS ABRIU OS OLHOS”

Vê o que diziam os jornais no dia seguinte a tua morte:

O dia de ontem não foi o domingo alegre que os paulistas costumavam ter. A morte de Monteiro Lobato surpreendeu São Paulo, levou o pesar a quase todos os espíritos e veio roubar à literatura brasileira uma de suas figuras mais vivas e populares. Independente, simples, bem humorado, corajoso, crítico, o criador de Emília surgiu para as letras de uma hora para outra (é esse, aliás, o seu feitio), graças apenas a um artigo de jornal, e, desde logo, conquistou o mundo leitor, fazendo com que suas obras fossem procuradas por multidões nas livrarias e lidas, de um só fôlego. Depois de conquistar os grandes, com uma plêiade de contos que ninguém lê uma só vez, Monteiro Lobato atraiu a criançada com uma série de histórias educativas: seus livros não tardaram a transpor as fronteiras do país, não se sabendo, hoje, com certeza, se as tiragens em língua espanhola superaram já as nossas… Monteiro Lobato morreu.

As manchetes ainda destacavam: Um dos nossos maiores patriotas combatentes. Sobre a morte de Monteiro Lobato, o escritor Menotti del Picchia disse às “Folhas” as seguintes palavras:

É a maior expressão literária de São Paulo atual que desaparece. A ausência de Lobato é uma perda imensa para a cultura brasileira, uma vez que ele não se limitava a ser apenas um criador de personagens imaginários, mas um homem que procurava a verdadeira realidade do Brasil, combatendo por ela com uma bravura que o recomenda como um dos nossos maiores patriotas combatentes. Três pontos pinaculares marcam a carreira do criador de “Urupês”: a redenção do homem brasileiro, a autonomia econômica do país e o amparo espiritual à infância. Basta isso — concluiu — para se ter uma medida da grandeza do paulista que o Brasil perdeu…

Guilherme de Almeida assim se expressou:

O desaparecimento de Monteiro Lobato deixa-nos desarvorados. Não só nas letras como na vida nacional, Lobato era a nossa sentinela atenta. Foi ele que sempre nos alertou, adultos ou crianças: — àqueles, ensinando a realidade: a estas, ensinando o sonho. Fechou os olhos aquele que nos abriu os olhos. O que nos resta? Essa grande lágrima que todos, todos estão chorando…

Edgard Cavalheiro, outro amigo de Monteiro Lobato — todos eram seus amigos — assim se referiu sobre o seu passamento:

Monteiro Lobato foi, a meu ver, não só um dos maiores escritores do Brasil, mas principalmente um dos maiores brasileiros de todos os tempos. Era um homem público na mais ampla acepção do vocábulo. Sua ação transcendeu sempre o simples campo literário. Deu ao escritor uma grande dignidade, levando-o a liderar grandes e nobres campanhas. Lobato abriu os caminhos para a penetração do livro brasileiro no “hinterland”. Lobato agitou o problema do ferro. Lobato levantou a grave questão do petróleo provando — contra a opinião da própria Comissão Nacional do Petróleo — que tínhamos petróleo e poderíamos explorá-lo.

E mais, perguntavam:

Do escritor, o que dizer? É um dos nossos maiores contistas; e indiscutivelmente o maior escritor de livros infantis, não só do Brasil, mas talvez do mundo.

Até o governo paulista tomou a seguinte decisão: o Sr. Ademar de Barros, governador do Estado, assinou o seguinte decreto, instituindo luto oficial pela morte de Monteiro Lobato e em nota decretou:

Considerando que o falecimento de Monteiro Lobato representa uma grande perda para a inteligência e cultura brasileiras;
Considerando o excepcional valor humano, social e estilístico de sua obra de escritor, que o tornou um nome de repercussão não só nacional, como sul-americana;
Considerando ainda o seu exemplo de coragem cívica, o seu amor aos problemas do país e a sua criação no domínio da literatura infantil, em que foi mestre, de modo a influir beneficamente na formação de uma nova mentalidade entre as crianças, por ele despertadas para o amor às coisas de nossa gente e de nossa terra:
DECRETA: Artigo único — Fica instituído luto oficial por 24 horas, nas repartições públicas e estabelecimentos escolares, em homenagem à memória de Monteiro Lobato, o grande escritor brasileiro, hoje falecido nesta capital.

Foste, não resta dúvida, pelas histórias, fatos e notícias em todos os meios de comunicação à época, o homem, pensador, escritor e revolucionário não só das letras, das palavras, mas da política. Tinhas ideias e as propagava, divulgando as mais controversas possíveis. Tanto é assim que, no dia do teu enterro traziam a seguinte manchete:

INCALCULÁVEL MASSA POPULAR RENDEU SUAS HOMENAGENS A MONTEIRO LOBATO

Governo e povo acompanharam até o cemitério da Consolação os restos mortais do querido pai do Jeca Tatu — decretado luto oficial — às expensas do estado os funerais do ilustre escritor.
As ruas nas proximidades da Biblioteca tiveram o trânsito interrompido cerca de trinta minutos, tal a massa humana que se formou para acompanhar os funerais. O féretro foi acompanhado por altas personalidades políticas e sociais, e por grande massa de pessoas que seguiu para o cemitério da Consolação. Enquanto isso, pela rua do mesmo nome, grande número de pessoas comprimia-se à entrada daquele campo santo, notando-se homens, mulheres, velhos e crianças que ali permaneciam numa derradeira homenagem.

Foram tantas as homenagens prestadas a ti, não só no Brasil, mas em várias partes do mundo, que não cabe aqui repetir, mas quem tiver interessado é só pesquisar nessa famosa ferramenta, a internet, que encontrará informações preciosas sobre o escritor, o homem, o político, enfim, sobre esse pensador e revolucionário que colocou a escrita como um verdadeiro instrumento de transformação.

Mas, como tudo na vida tem um verso e o seu reverso, fala-se de várias posições que tomaste enquanto homem de expressão no cenário brasileiro. Dentre as tantas podemos citar algumas só para mostrar as tuas contradições que são, inclusive, enumeradas. Primeiramente que tinhas atitudes que iam “Do comunismo ao racismo, o pai do Sítio do Pica-pau Amarelo flertou com todas as vertentes” E continua sendo um dos maiores escritores infantis do Brasil. As controvérsias são, inclusive, enumeradas:

1. Nasceu José Renato Monteiro Lobato, mas mudou o nome para José Bento, porque queria usar uma bengala do pai com as iniciais JBML, o que não seria possível se suas iniciais fossem JRML.
2. Foi reprovado em Português na primeira tentativa de entrar na Faculdade de Direito.
3. Queria cursar Belas-Artes, mas virou advogado por exigência do avô.
4. Em 1926, foi morar nos Estados Unidos como adido comercial da embaixada brasileira. Lá, publicou “O Presidente Negro e o Choque de Raças”, que trata de uma eleição presidencial em que um dos candidatos é negro. E outro é mulher.
5. Monteiro Lobato voltou ao Brasil em 1931, certo de que o País tinha petróleo em seu subsolo, e foi ridicularizado por isso.
6. Incansável, escreveu uma carta ao então presidente Getúlio Vargas, que considerou o texto “ofensivo” e mandou Lobato pra cadeia.
7. O escritor ficou preso por três meses no Presídio Tiradentes – o mesmo onde, até 1972, ficou detida Dilma Rousseff, atual Presidente da República.
8. Finalmente, a primeira jazida de petróleo brasileira foi descoberta em 1939, em um bairro de Salvador chamado Lobato.
9. É de Monteiro Lobato o lema “O Petróleo é Nosso”, usado na campanha pela criação da Petrobras.
10. “Botocúndia” foi o apelido criado pelo escritor para se referir ao Brasil.
11. Brigou com os modernistas ao escrever uma crítica furiosa atacando a obra da pintora Anita Mafatti.
12. Também brigou com Oswald de Andrade. Em 1926, disse que um livro do autor “apareceu em São Paulo como o fruto da displicência dum rapaz rico”.
13. No dia seguinte, o escritor Mario de Andrade “decretou” a morte de Monteiro Lobato em um artigo de jornal.
14. Mas eles fizeram as pazes nos anos 30. Monteiro Lobato até defendeu Mario em uma carta, dizendo a um amigo que, por seu talento, o autor de Macunaíma tinha direito “a tudo, até de meter o pau em você e em mim”.
15. Antes da rusga com os Modernistas, Lobato tinha publicado livros de ao menos dois deles: Menotti Del Picchia e Oswald de Andrade. Ambos com capa de Anita Malfatti.
16. Depois de libertado do presídio Tiradentes, Monteiro Lobato teve um lote de livros apreendidos e destruídos.
17. Quando o governo Vargas prejudicou seus negócios, Monteiro Lobato se aproximou dos comunistas e participou de um comício de Luís Carlos Prestes no estádio do Pacaembu.
18. Foi um defensor da eugenia, conceito que prevê e valoriza a manutenção de uma raça pura, perfeita.
19. Nessa fase, chegou a trocar correspondências com amigos defendendo a Ku-Klux-Klan: “Um dia se fará justiça ao Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca (…).”
20. Lobato adorava tirar fotos. Tinha uma Rolleiflex e clicava as netas fantasiadas de ciganas, ou as caçadas a borboletas que faziam juntos.
21. Aos 22, ganhou um concurso literário do Centro Acadêmico onde estudava.
22. “A Menina do Narizinho Arrebitado”, precursor do que viria a se tornar a série do Sítio de Pica-pau Amarelo, foi lançado no Natal de 1920.
23. O livro tinha ilustrações de Voltolino, caricaturista que tinha trabalhado no “Pirralho”, a revista fundada por Oswald de Andrade.
24. Tinha uma expressão para se referir às pessoas que morriam: elas se tornavam “gás inteligente”.
25. Lobato se considerava um pintor por vocação e um escritor por circunstâncias.
26. Ele mesmo ilustrou a primeira edição de seu livro “Urupês”.
27. Em 1921, em uma rápida autobiografia escrita para uma revista, prometia “publicar ainda um romance sensacional que começa por um tiro: Pum! E o infame cai redondamente morto.”
28. Em uma carta enviada a um professor, junto a alguns exemplares de Narizinho, Lobato pedia ao amigo para testar o livro com as crianças. Explicava: “Só procuro isso: que interesse às crianças”.
29. Respondia todas as cartas que recebia dos leitores mirins.

Finalmente, após essa longa explanação, venho te dizer que, o que mais me chamou atenção foi o fato de que não conhecia tua obra: “O Presidente Negro ou Choque das Raças”. Veja o que diz uma sinopse dessa tua obra:

Em O Presidente Negro ou Choque das Raças (Editora Globo, 2008), publicado originalmente em 1926, Monteiro Lobato, neste seu único romance adulto e de ficção científica, constrói uma narrativa que se passa em dois momentos distintos: em 1928 e no ano de 2.228, ou seja, trezentos anos no futuro.

Ayrton, cobrador da empresa Sá, Pato & Cia. sofre um acidente automobilístico na região de Friburgo (Rio de Janeiro) e é resgatado pelo recluso professor Benson, que o leva para sua residência. Ali, ele trava contato com a grande invenção de Benson, o “porviroscópio”, um dispositivo que permite ver o futuro, e com miss Jane, a bela e racional filha do cientista.

Como é de se esperar, Ayrton se apaixona platonicamente por miss Jane, e passa a frequentar a residência do professor Benson, mesmo após a morte do mesmo, que antes de morrer destruiu o “porviroscópio”. Em suas visitas, sempre aos domingos, Ayrton houve o relato de fatos ocorridos no futuro, no ano de 2.228, envolvendo a eleição para presidente dos Estados Unidos. Como assistidos por Miss Jane antes de seu pai destruir o “porviroscópio”.

Neste futuro existem três partidos americanos: o Partido Masculino, o Partido Feminista e o Partido Negro. Tendo em vista a população de então, descontado os menores que não podem votar, cada partido teria respectivamente o seguinte número de eleitores: 51 milhões (PM); 51 milhões (PF); e 54 milhões (PN); uma vez que o Partido Feminista é composto apenas por mulheres brancas. Os negros têm em média pouco mais que um terço dos votos, inviabilizando assim a eleição do representante de seu partido. Esta situação é modificada no ano de 2.228, nesta eleição três candidatos disputam o cargo para o executivo norte-americano: Kerlog (que pretende ser reeleito pelo PM); Evelyn Astor (pelo PF) e Jim Roy (pelo PN). A divisão dos brancos em duas candidaturas possibilita a eleição de Jim Roy. Monteiro Lobato permeia a narrativa com algumas considerações raciais. Diz que tanto nos Estados Unidos como no Brasil houve erros iniciais na composição destas nações, este erro foi trazer o negro para a América, quando deveria ter permanecido na África.

Diz a sinopse que Lobato afirma que a segregação como implantada nos Estados Unidos é a melhor saída para este problema. Mas ressalta que, nessa fala, Lobato faz uma crítica direta ao antropólogo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, João Batista de Lacerda, que em um texto publicado em 1911 (Sur les Métis au Brésil / Paris, Imprimerie Devouge) desenvolveu suas ideias sobre o branqueamento futuro da população brasileira, que aconteceria até o início do século XXI.

Assim, é, realmente, um debate muito interessante, principalmente hoje, quase na segunda década – 2019 do Século XXI, as discussões, os debates sobre racismo, preconceitos se fazem tão presentes. Fiquei curiosíssima, tentei comprar a obra nas livrarias, mas não encontrei, mandei buscar pela internet, esse instrumento poderosíssimo produzido pelo trabalho humano.

No aguardo da tua obra, em forma de romance: “O Presidente Negro ou Choque das Raças”, subscrevo-me atenciosamente, mas antes gostaria de pedir desculpas pela extensão de minha carta,

Com saudoso afeto

Ivanilde Morais de Gusmão

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